Porque existem anos bissextos (com 366 dias)?
3 Outubro, 2016

Chegou ao fim o Pesadelo do Fogo

Hoje, um dos maiores incêndios já registados ao longo de séculos em Portugal, devastou milhares e milhares de quilómetros de floresta, matou inúmeros animais, levou consigo 64 vidas humanas e ferio mais de 200. Nestes números encontram-se casas de pessoas cheias de um passado, agora traumatizado, resumidas a cinzas. Terras de quem levava a vida a colher do chão o seu próprio ordenado, arderam até o solo se tornar infértil. Vidas aterrorizadas, memórias de um cerco de fogo sem controlo, famílias e amigos perdidos, fome, sede e muito, muito medo.

Estiveram em campo milhares de bombeiros e militares portugueses, assim como ajuda de Espanha e França. Foram inúmeros os esforços para combater aquele que já muito tinha dominado, e com os ventos a seu favor, esperava-lhe um vasto território, ainda, para deixar a cinzas.

Bombeiros, militares e polícias que deram a sua vida para salvar outras. Que deixaram a família em casa com o coração nas mãos e o medo no coração. Muitas lágrimas escorreram dos rostos destes heróis que rapidamente secaram com as altas temperaturas a que se encontravam expostos.

Pessoas entrevistadas, vitimas desta catástrofe que se deu devido a trovoada seca (diz-se), relatam o sofrimento que é ver as chamas a chegar sentindo total impotência, o sufoco que é tentar respirar de baixo de uma nuvem negra enquanto o coração chora de aflição e contam numa mão os familiares que não se safaram e pela outra os que cujo paradeiro se desconhece.

O clima não ajudou, os Eucaliptos foram propícios e o fogo resistente. O céu escureceu, nenhum raio solar era, agora, capaz de atravessar aquela nuvem de cor negra intensa que anoitecia o local em pleno dia. Incrível o quão fácil foi tornar-se numa catástrofe.

Fácil foi o colocar das culpas. Depois do impacto do momento, sempre vem a culpa. Culpou-se os bombeiros por terem milhares de pessoas no terreno e não conseguirem domar o bicho. Culpou-se a polícia por encaminharem as pessoas para a estrada da morte. Culpou-se o Governo por insistir em alimentar a presença de Eucaliptos nas florestas portuguesas. Culpou-se os especialistas em meteorologia por não terem previsto que aquela trovoada seca podia originar o fim do mundo. Culpou-se os médicos legistas por demorarem a chegar e a analisar os locais onde iam aparecendo cadáveres deixando-os por lá perdidos sem vigilância. Culpou-se o clima por andar louco nestes últimos anos e ter permitido que algo desta grandeza acontecesse. Culpou-se os privados por deixarem os seus terrenos ao abandono sem controlo de vegetação ou rega.

Culpou-se e culpou-se e ninguém assumiu a culpa. Ninguém foi capaz de assumir que todos nós somos um pouco culpados por esta catástrofe. Ninguém concluiu que nada poderia fazer prever algo assim. Ninguém foi capaz de compreender que encontrar um culpado não elimina as consequências de um problema.

Ontem não se via o fim, hoje terminou. Terminou o sofrimento da população residente, terminou o sofrimento daqueles que tinham a família a residir no local, terminou as tentativas escassas, os fogos postos controlados, e a dor do desconhecido.

Terminou. Mas a nuvem negra ficou a pairar no ar, os terrenos a cinzas ficaram e assim irão continuar por muito tempo, a relembrar o sofrimento que se viveu durante cinco dias intensos e marcantes, os parentes cuja vida foi levada pelo incêndio, as casas totalmente destruídas sem uma única recordação viva, tudo isso ficou. Ficou em Pedrógão Grande. Ficou no coração de todos os portugueses. Ficou para sempre guardado na história.

Hoje terminou, o maior pesadelo dos portugueses.

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